sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A alegria é triste

No último domingo, Salvador assistiu a uma festa esquisita pela TV local. A implosão do Estádio Octávio Mangabeira, a Fonte Nova, foi transformada em uma mistura de cerimônia épica, velório, boca livre e programa de domingo para a família inteira. Teve até a famigerada invenção mais aclamada da classe média: camarotes para vips, famosos, imprensa e autoridades.

Teve até um quê de arremedo de festa religiosa, pois assim como os pedaços da cruz onde Jesus foi crucificado que se diz existirem hoje no mundo dariam para fazer centenas de cruzes, tantos quantos serão os pedaços dos escombros da Fonte Nova que as gerações futuras serão obrigadas a cultuar, herdados dos antepassados que foram à implosão para resgatar uma relíquia de cimento. Cada um tem a relíquia que pode e quer, ora.

A televisão é um bicho encantatório e hipnótico. Quase sempre, com raras exceções (José Serra é uma delas), transforma qualquer coisa em outra coisa.

Assim sendo, mesmo que muita gente não tenha planejado participar da festa e muito menos chorar na cerimônia, foi hipnotizado pela cobertura televisiva dos dias anteriores e quando se deu conta lá estava, nas imediações da Fonte Nova, pronto para emocionar-se e chorar tão logo se aproximasse uma câmera, um microfone ou um repórter curioso para saber do espectador qual era o sentimento naquele instante.

Essa é uma pergunta fatal da TV, seja diante de um soterramento de mãe, de um palco protagonizado por Fiuk e, imagine-se, diante da implosão de toneladas e toneladas de cimento de um estádio de futebol.

INSULTANTE - Para coroar o aspecto circense de uma emotividade que o público não hesita em exercitar quando a imprensa está por perto, uma mulher devidamente fardada com uma camisa do Vitória foi de uma franqueza insultante para os presentes entristecidos diante do enterro do estádio, cuja morte se deu junto com as vítimas da tragédia de setembro de 2007. Perguntada sobre o que sentia, a moça não decepcionou os perversos: “eu vou levar um pedaço de pedra para casa. Mas estou alegre de ver a casa do Bahia caindo”. Sinceridade demais faz mal a comoções públicas.

Futebol é futebol e opinião de torcedor é tão levada a sério quanto juras de amor de bêbados, mas a fala da moça não deixa de servir como ilustração à perfeição à tese de que “baiano é capaz de gastar 100 para o outro não ganhar não ganhar 10”.

A frase é uma das muitas insólitas e tradutoras da Bahia atribuídas ao ex-governador Octávio Mangabeira, liderança política que deu, inclusive, nome ao estádio. E olhem que Mangabeira morreu nos anos 60, quando o mundo, e a Bahia junto, era muito mais inocente.

O fato é que só a perversão humana, a catarse das torcidas ou a sordidez pura e simples é capaz de levar um ser humano acordar numa manhã de domingo para ver um desabamento só pela alegria de ver o opositor enterrando seu passado afetivo.

Foi a declaração mais interessante entre o chora chora captado pela TV. Faz pensar na arquitetura do pensamento dos indivíduos e naquilo que os move. Era a tristeza de tantos, real ou despertada de véspera pelo tatibitate da imprensa, transformada na alegria de umas poucas e de uma única que a confessava.

NÁDEGAS - Uma semana depois, também via futebol, o país assistia a um espetáculo festivo que revelaria a fluidez entre festa, alegria, tragédia e tristeza. O que era a monumental festa dos 100 anos do Corinthians não poderia ter terminado de maneira mais vulgar: 25 vagões de trens e dezenas de fachadas de edifícios depredados por vândalos em êxtase e uma torcedora morta, atropelada por nada menos que o ônibus imponente da cúpula do time. Alegria mais triste, impossível.

Para além dos dois espetáculos esportivos, o show de horrores continua diariamente na TV durante o horário eleitoral e no telejornalismo político. Numa eleição que caminha para a falta de surpresas, haja factóides de quinta. O mais criativo que conseguiram imaginar foi a quebra de sigilo fiscal de meia dúzia de nomes políticos conhecidos por menos de meia dúzia de brasileiros.

Para disfarçar, quebram também o de Ana Maria Braga, numa prova tácita de que os autores do imbróglio não têm um pingo de criatividade. Todo mundo deve mais do que imaginar os números nababescos que passam ou se escondem do Imposto de Renda de Ana Maria Braga. O que ninguém sabe é a forma da cara e da conta corrente do Louro José.

E ainda no imbróglio eleitoral da quebra de sigilo de aliados do candidato José Serra e seus familiares, atribuído pelo próprio à candidata Dilma Roussef, seja lá quem tenha sido, a estratégia pareceria estúpida a qualquer boa vilã da TV, gente como Flora e Clara, por exemplo.

Se foram os chamados aloprados do PT, como dizem os tucanos, para bisbilhotar a vida dos próximos a Serra buscando contradições financeiras para tirar votos do candidato, perguntar não ofende: tirar quais votos, estúpidos?

O homem não os tem. Se foram os tucanos, para jogar a culpa em Dilma e queimá-la junto ao eleitorado, a pergunta é: e o grosso do eleitorado de Dilma, aquele que faz a diferença nas urnas e que não sabe quem é Zé, lá vai saber quem diabos é Verônica Allende Serra e Eduardo Jorge? E pior: quantos eleitores sabem que raio é sigilo fiscal quebrado? Quanto a Ana Maria Braga, o povo tá muito mais interessado em saber quantos mililitros de silicone desapareceram em suas nádegas sem fazer efeito do que em seu Imposto de Renda.

Texto publicado originalmente no Jornal A Tarde, em 5 de setembro.